De Olho na Mercearia
- Por favor, seu Manuel, tem veneno pra rato?
- Tá difícil acabar com os ratos, eim, D. Cida?
- Difícil mesmo. Tem um grande lá que come come e continua vivo, o maldito!
- E o seu João, como está, melhorou?
- Daquele jeito de sempre. Não vai ao médico de jeito nenhum. Eu nem insisto que não adianta.
- Emagreceu, o coitado. Ele não come bem?
- Se come!? O mesmo esganado de sempre. Joga a comida pra dentro da goela que nem sente o gosto. Se farta com toda a lingüiça do feijão só pra ele, o egoísta. De raiva nem feijão eu como mais.
- Nossa! E emagrece mesmo assim! Dia deste ele passou aqui pra tomar um aperitivo: com olho apagado, pescoço fino, tossia manchando o lenço de sangue, coitado. Mas a senhora está bem não é D. Cida!? Rosto corado, olho brilhando, sempre a vejo andando pela rua, transbordando em saúde.
- Graças a Deus e a mim mesma, sempre soube me cuidar.
- Deus conserve assim, com esse decote bonito, tornozelo grosso - disse ele se achegando sobre o balcão.
- Obrigada, o senhor é muito gentil, seu Manuel! - abrindo sorriso enaltecido.
- Como poderia deixar de ser, sempre notei que a senhora é muito bonita, bem podia uma hora passar aqui com tempo, à noitinha quando fecho a venda, a gente toma uma bebida, come um salame italiano... - agora a mão dele já roça na mão na dela e sobe pelo braço rechonchudo.
- Vou passar mesmo, o João sempre doente cansado, chega do serviço come come e dorme, e eu sozinha frente a TV - disse ela revirando os olhos de desalento.
- Prometo abrir um vinho português que tenho guardado pra esta ocasião especial - ele falou com sorriso largo de lobo que viu ovelha branquinha no pasto; uma gotinha de baba quase se precipita pelo canto da boca e ele em tempo puxa - chuip - e sorve com a língua.
- Quem sabe hoje... - disse ela, enquanto ele roçava a unha comprida do mindinho acima do seio, perto a axila, fazendo ela de arrepio, se encolher sem fugir - dou a janta pro João, e depois que ele dormir...
- Ótimo!, umas nove horas eu fecho aqui, é só bater na porta ao lado que abro - uma mão dele já sustenta a teta que estava sobre o balcão apoio das tetas de todas as Donas e errantes do bairro, e com o polegar rodeia o mamilo ouriçado.
- Agora tenho que ir fazer a janta pro moribundo, deixei o feijão no fogo. Quanto te devo? - falou revirando a bolsinha de moedas.
- Ora, não é nada, por conta da nossa amizade - ah, quando esmola é muita o santo desconfia.
Mas ela de santa não tem nada.
- Obrigada, seu Manuel! Ah, esqueci. Preciso de três quilos de calabresa e esta peça inteira de mussarela - disse a vivaldina com sorriso monalístico. Pois é: o barato sai caro.
- Claro, D. Cida, pois não - mas ele é comerciante escolado e sabe o valor da "mercadoria" - agora a senhora leva só um pouco de calabresa e mussarela, pra eu não ficar sem, mais tarde chega mais do fornecedor e a noite a senhora leva o resto - é: primeiro dá cá, depois toma lá, comerciante esperto não faz fiado.
- Tudo bem. Combinado. Depois vou levar também um pouco de bacalhau - é, se ele pagasse antecipado era um preço, na entrega do "serviço" vai sair mais caro.
- Espero pela senhora então - disse ele se coçando com a mão no bolso enquanto a via ir balançando a enorme bunda que comeria ao custo do bacalhau adicional.
E ela chegando em casa temperou o feijão, gulosa, comeu quase toda a lingüiça. Depois salpicou um pouquinho de veneno - que fosse devagarinho pra não despertar suspeita -, e deixou no fogo pra engrossar o caldo. E enquanto assistia TV pensava que depois do marido o próximo poderia ser o seu Manuel.
- Madeu St'ore
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